Dias destes, li num jornal (não tenho mais paciência para ficar horas e horas assistindo o que tentam me passar como conteúdo televisivo) que um 'astro' pop - destes que 'pipocam' aos montes por ai - havia arremessado( isto mesmo!), de cima de um palco, um garoto que apenas queria um autógrafo do seu ídolo na camiseta. O pulha alegou, chorando de remorsos depois que a imprensa caiu de pau em cima dele, que fez o que fez pelo fato do fã estar atrapalhando sua performance. Detalhe: o garoto o chamou da platéia e o cantor o convidou para subir no palco, na trairagem total. Não houve sequer o fator surpresa ou algo parecido. Foi pura e simplesmente o caso do cara achar que podia fazer isto e fez. Algo grande - grande para os padrões de sua minúscula cabeça.
Desde quando a chamada eleite 'cultural' está na crista da onda (cerca da segunda metade do século XX, com a ascenção dos padrões norte-americanos como patamar hegemônico), ditando modas e conceitos, fundando verdadeiras instituições ideológicas e arrastando multidões de um lado para o outro, em todo o globo, como verdadeiros messias, o senso comum acha normal seus excessos, seus delírios de grandeza. Por quê? Teria o ser humano, de fato, alguma necessidade psicológica ou orgânica para tolerar coisas como isto?
Não estou falando de falta de 'humildade', 'excentricidade patológica' ou de seguir padrões pré-estabelecidos de conduta louvável e autruísta(cristã ou o que quer que o valha como exemplo), mas não consigo engolir mais tamanha babação de ovo em cima de verdadeiros cabeças-de-vento metidos a sabe-tudo. É revoltante que a população fique á mercê de tais figuras, ora mais radicais, ora menos, tudo dependendo do momento histórico e social. A cultura deixou de ser o radar do povo. Agora é o fogão, o aparelho de micro-ondas ou o liquidificador. Ou qualquer utilitário doméstico que pode ser comprado no magazine próximo de sua residência, para melhor comodismo do consumidor, sempre ávido por novas e mais modernas "excentricidades" por parte da classe artística, numa espécie de fetichismo, com hora e local marcados na sua sala de estar. Mas estamos numa época em que as pessoas têm uma noção quase 'mágica' da tecnologia, tal é nossa dependência dela. Pensar não está na ordem de serviços do dia. Talvez por isto, a música pop se tornou tão poderosa em nosso cotidiano. O pop vive de sí mesmo, ou seja, de eternos resgates de modismos já aprovados pelo gosto e do bolso do consumidor.
Todo mundo tem direito a relaxar, de preferência escutando um cd ou disco, assistindo a um filme ou lendo um livro. Ainda a alternativa de, simplesmente, não fazer nada além de ferrar no sono e só acordar no outro dia, para voltar a rotina de trabalho, almoço, janta, sexo mecânico e sono, de novo. O problema é o está sendo engolido, literalmente, durante este estado vulnerável de descanso. O ser humano é um animal curiosíssimo: tudo na sua vida reflete o seu fisiologismo orgânico( até as máquinas, nossas crias, precisam ser alimentadas e 'descansar' para consertos, não é?), então o que parece acontecer é que, quando estamos fora do ambiente artificial da urbanidade e de suas obrigações, já que todos precisamos trabalhar para sobreviver nela, deixamos de lado critérios éticos ou racionais, sendo levados pela letargia mental e o hedonismo contagiante de um mundo possível, porém inatingível. A esfera das idéias, como diriam os poetas e pensadores da Antiguidade pré-industria cultural. Aí entram os pop stars com seu glaumor, paetês e purpurina, holofotes e produção esmerada, elevando nossa adrenalina adormecida, tirando nossos pés do chão. Somos capazes de perder a fome e a sede diante da espera de horas ou dias numa mísera fila de compra de ingressos. Que muitas vezes custam os olhos da cara ou o salário de um mês ou mais de trabalho, nosso ou de nossos velhos pais que não sabem de nada do mundo moderno e seus mistérios dionisíacos. Na verdade, o que compramos na entrada do show não é uma mera entrada para um estádio abarrotado de pessoas suadas, banheiros sujos e entupidos e bebida quente e cara. Estamos submergindo numa outra realidade. A que sonhamos quando, depois de chegarmos do trabalho, sentamos no sofá e ligamos o aparelho de som. As ondas penetram na massa cinzenta alojada na caixa craniana e somos teletransportados para os infinitos universos dos desejos humanos. Quantos, diante do espetáculo do garoto sendo arremessado do palco, não ficaram chocados, mas, depois, não teriam feito o mesmo? Estranho que, normalmente, somos prestativos quando vemos uma velhinha com dificuldades em subir para o ônibus com sacolas pesadas ou nos conduemos quando vemos uma criança pequena chorando após sofrer um acidente, na rua brincando com os amigos. São pessoas normais, enfim. Não pop stars...
O mais irônico de tudo é que, antes, os músicos eram uma espécie de operários mambembes, que quase sempre não tinham aonde, literalmente, cair mortos. Trabalhavam, até o século XIX, como artistas de base para a elite da época: artesãos, escultores, pintores e outros que viviam nos tempos do faça-o-que-puder-se-souber-fazer-bem. A ascensão da classe ao nível de deuses humanos é um fator muito curioso e, também, misterioso, que pode ter a ver com as novas tecnologias de produção (transformando, em termos vocais e de talento, verdadeiros marrecos em cisnes) e marketing promocional (alcançando as mais distantes províncias do mundo rural e arcaico fora das fronteiras da crescente e auto-promotora industria cultural anglo-americanas). Podemos observar que, na nossa vida cotididiana, artistas têm um papel norteador dentro do imaginario( e por que não dizer, econômico também) de nossa sociedade contemporânea. Alguns tem status de chefes-de-estado (Bono Vox); um certo punhado deles possuem mais dinheiro que alguns países em desenvolvimento (Pink Floyd); já alguns cultivam gostos exóticos que podem incluir sequestro e cativeiro privado de suas presas (Boy Jorge). A lista poderia aumentar virtigiosamente se levarmos em conta os subgêneros, subfilos e subspécies do maior dos clãs, ele mesmo, o velho(com certeza) e bom(nem sempre e nem tanto se pensarmos melhor agora) sr. Rock'n Roll. Os músicos do gênero só perdem para os astros e atrizes do cinema do 1º mundo - isto quando não atacam nos dois times de vez! Ele, Rock'n Roll, não morreu mas esta dando sinais de cansaço crônico ou simplesmente se transformando, se levarmos em conta os avanços de mixagem e produção. A música eletrônica, criada a mais de cinquenta anos nos meios eruditos, migrou para as praias do rock e praticamente não se pode dizer se uma banda como Prodigy ou NIN é uma coisa ou outra.
Mas, na minha opinião, não vale mais a pena quebrar a cabeça com tais paradigmas. Talvez já saibamos a resposta no final das contas. Tudo não passa apenas de entretenimento. Nós bancamos isto. Nós o criamos.
Desde quando a chamada eleite 'cultural' está na crista da onda (cerca da segunda metade do século XX, com a ascenção dos padrões norte-americanos como patamar hegemônico), ditando modas e conceitos, fundando verdadeiras instituições ideológicas e arrastando multidões de um lado para o outro, em todo o globo, como verdadeiros messias, o senso comum acha normal seus excessos, seus delírios de grandeza. Por quê? Teria o ser humano, de fato, alguma necessidade psicológica ou orgânica para tolerar coisas como isto?
Não estou falando de falta de 'humildade', 'excentricidade patológica' ou de seguir padrões pré-estabelecidos de conduta louvável e autruísta(cristã ou o que quer que o valha como exemplo), mas não consigo engolir mais tamanha babação de ovo em cima de verdadeiros cabeças-de-vento metidos a sabe-tudo. É revoltante que a população fique á mercê de tais figuras, ora mais radicais, ora menos, tudo dependendo do momento histórico e social. A cultura deixou de ser o radar do povo. Agora é o fogão, o aparelho de micro-ondas ou o liquidificador. Ou qualquer utilitário doméstico que pode ser comprado no magazine próximo de sua residência, para melhor comodismo do consumidor, sempre ávido por novas e mais modernas "excentricidades" por parte da classe artística, numa espécie de fetichismo, com hora e local marcados na sua sala de estar. Mas estamos numa época em que as pessoas têm uma noção quase 'mágica' da tecnologia, tal é nossa dependência dela. Pensar não está na ordem de serviços do dia. Talvez por isto, a música pop se tornou tão poderosa em nosso cotidiano. O pop vive de sí mesmo, ou seja, de eternos resgates de modismos já aprovados pelo gosto e do bolso do consumidor.
Todo mundo tem direito a relaxar, de preferência escutando um cd ou disco, assistindo a um filme ou lendo um livro. Ainda a alternativa de, simplesmente, não fazer nada além de ferrar no sono e só acordar no outro dia, para voltar a rotina de trabalho, almoço, janta, sexo mecânico e sono, de novo. O problema é o está sendo engolido, literalmente, durante este estado vulnerável de descanso. O ser humano é um animal curiosíssimo: tudo na sua vida reflete o seu fisiologismo orgânico( até as máquinas, nossas crias, precisam ser alimentadas e 'descansar' para consertos, não é?), então o que parece acontecer é que, quando estamos fora do ambiente artificial da urbanidade e de suas obrigações, já que todos precisamos trabalhar para sobreviver nela, deixamos de lado critérios éticos ou racionais, sendo levados pela letargia mental e o hedonismo contagiante de um mundo possível, porém inatingível. A esfera das idéias, como diriam os poetas e pensadores da Antiguidade pré-industria cultural. Aí entram os pop stars com seu glaumor, paetês e purpurina, holofotes e produção esmerada, elevando nossa adrenalina adormecida, tirando nossos pés do chão. Somos capazes de perder a fome e a sede diante da espera de horas ou dias numa mísera fila de compra de ingressos. Que muitas vezes custam os olhos da cara ou o salário de um mês ou mais de trabalho, nosso ou de nossos velhos pais que não sabem de nada do mundo moderno e seus mistérios dionisíacos. Na verdade, o que compramos na entrada do show não é uma mera entrada para um estádio abarrotado de pessoas suadas, banheiros sujos e entupidos e bebida quente e cara. Estamos submergindo numa outra realidade. A que sonhamos quando, depois de chegarmos do trabalho, sentamos no sofá e ligamos o aparelho de som. As ondas penetram na massa cinzenta alojada na caixa craniana e somos teletransportados para os infinitos universos dos desejos humanos. Quantos, diante do espetáculo do garoto sendo arremessado do palco, não ficaram chocados, mas, depois, não teriam feito o mesmo? Estranho que, normalmente, somos prestativos quando vemos uma velhinha com dificuldades em subir para o ônibus com sacolas pesadas ou nos conduemos quando vemos uma criança pequena chorando após sofrer um acidente, na rua brincando com os amigos. São pessoas normais, enfim. Não pop stars...
O mais irônico de tudo é que, antes, os músicos eram uma espécie de operários mambembes, que quase sempre não tinham aonde, literalmente, cair mortos. Trabalhavam, até o século XIX, como artistas de base para a elite da época: artesãos, escultores, pintores e outros que viviam nos tempos do faça-o-que-puder-se-souber-fazer-bem. A ascensão da classe ao nível de deuses humanos é um fator muito curioso e, também, misterioso, que pode ter a ver com as novas tecnologias de produção (transformando, em termos vocais e de talento, verdadeiros marrecos em cisnes) e marketing promocional (alcançando as mais distantes províncias do mundo rural e arcaico fora das fronteiras da crescente e auto-promotora industria cultural anglo-americanas). Podemos observar que, na nossa vida cotididiana, artistas têm um papel norteador dentro do imaginario( e por que não dizer, econômico também) de nossa sociedade contemporânea. Alguns tem status de chefes-de-estado (Bono Vox); um certo punhado deles possuem mais dinheiro que alguns países em desenvolvimento (Pink Floyd); já alguns cultivam gostos exóticos que podem incluir sequestro e cativeiro privado de suas presas (Boy Jorge). A lista poderia aumentar virtigiosamente se levarmos em conta os subgêneros, subfilos e subspécies do maior dos clãs, ele mesmo, o velho(com certeza) e bom(nem sempre e nem tanto se pensarmos melhor agora) sr. Rock'n Roll. Os músicos do gênero só perdem para os astros e atrizes do cinema do 1º mundo - isto quando não atacam nos dois times de vez! Ele, Rock'n Roll, não morreu mas esta dando sinais de cansaço crônico ou simplesmente se transformando, se levarmos em conta os avanços de mixagem e produção. A música eletrônica, criada a mais de cinquenta anos nos meios eruditos, migrou para as praias do rock e praticamente não se pode dizer se uma banda como Prodigy ou NIN é uma coisa ou outra.
Mas, na minha opinião, não vale mais a pena quebrar a cabeça com tais paradigmas. Talvez já saibamos a resposta no final das contas. Tudo não passa apenas de entretenimento. Nós bancamos isto. Nós o criamos.
